Argentina anuncia fim do
'corralito' em passe de mágica
BUENOS AIRES - Nesta sexta-feira, o governo da presidente
argentina, Cristina Kirchner, desembolsará US$ 2,3 bilhões (entre juros e
principal) para saldar a última parcela do famoso Boden 2012, o título emitido
pela Argentina em janeiro de 2002 para compensar as vítimas do confisco de
depósitos em dólares (o chamado corralón). A medida foi comemorada nesta quinta
pela Casa Rosada em clima de declaração da independência do país, como mostrou
uma mensagem divulgada através do site do Ministério da Economia: "Sem
dívida somos mais livres".
_ O Boden 2012 é o dinheiro que os bancos deveriam ter devolvido
aos argentinos _ declarou Cristina.
Na rede social Twitter, o ministro da Economia, Hernán Lorenzino,
assegurou que "a Argentina pagou o Fundo (Monetário Internacional) e não
segue mais receitas. Isso é independência econômica". A presidente, que
nesta quinta à noite realizou seu décimo segundo discurso em rede nacional de
rádio e TV deste ano, comunicou a medida como o "fim do corralito" (o
confisco de todos os depósitos do país, em pesos e moeda estrangeira, aplicado
em dezembro de 2001).
No entanto, ainda restam parcelas do Boden 2013, que vence em
abril do ano que vem, com um último desembolso de US$ 1,962 bilhão. O Boden
2012 foi emitido pelo ex-presidente Eduardo Duhalde (2002-2003), poucos depois
de ter afirmado em seu primeiro discurso como chefe de Estado que "quem
depositou dólares, receberá dólares".
Sem os dólares necessários para cobrir os saques de milhões de
argentinos que todos os dias corriam aos bancos para retirar seus depósitos em
moeda estrangeira (as aplicações em pesos foram confiscadas no final de 2001),
o governo foi obrigado a descumprir uma promessa do então presidente e apelar
para a emissão de bônus.
Nos últimos anos, os papéis foram revendidos para investidores
estrangeiros e hoje estima-se que 70% do total estão em poder de fundos como o
Fidelity Investment e o Black Rock. Os pagamentos começaram a ser realizados em
2008 e totalizarão, com o vencimento de hoje, US$ 17,5 bilhões. O governo do
presidente venezuelano, Hugo Chávez, fez grandes negócios com o Boden 2012,
título que o líder bolivariano costumava chamar de "bônus Kirchner".
Desde que os Kirchner chegaram ao poder, em 2003, a dívida pública
argentina passou por processos de restruturação e grandes pagamentos, como o
que foi feito ao FMI em 2005, de cerca de US$ 10 bilhões. No entanto, de acordo
com dados oficiais, no final de 2011 a dívida do país alcançava US$ 178,9
bilhões, o que representa um aumento de US$ 53 bilhões frente a 2005.
Atualmente, a dívida argentina representa 19,3% do PIB do país.
Dirigentes da oposição questionaram o anúncio de ontem da
presidente.
- Nem terminou o corralito, nem estamos em processo de
desendividamento - afirmou o deputado Claudio Lozano, do partido Unidade
Popular. Segundo ele, "todos os anos nossa dívida aumenta, em média, em
US$ 10 bilhões".
A mesma posição foi adotada por outros dirigentes da oposição,
entre eles o deputado e cineasta Fernando "Pino" Solanas, que já
apresentou denúncias na Justiça pela suposta ilegalidade da dívida argentina.
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