Com computadores, cientistas argentinos decifram
mecanismos para não esquecer
Buenos
Aires, 8 ago (EFE).- Com a ajuda de computadores, cientistas argentinos
decifraram mecanismos associados ao esquecimento que podem servir para
desenvolver tratamentos contra a depressão e doenças degenerativas como o mal
de Alzheimer, explicou para a Agência Efe um dos responsáveis pelo estudo.
Os pesquisadores do Instituto Universitário do Hospital Italiano
de Buenos Aires desenvolveram um simulador do hipocampo, região do cérebro
capaz de lembrar situações, através de um modelo matemático feito no
computador.
O objetivo é desenvolver uma tecnologia que ajude a criar um
'chip' que possa ser implantado em pessoas com doenças como o mal de Alzheimer
e que ative os processos da memória, declarou o médico Pablo Argibay, a cargo
do estudo iniciado há seis anos junto com a bioengenheira Victoria Weisz.
'Seria um chip que com o potencial de fazer as funções do
hipocampo. É uma tecnologia que ainda não está disponível, mas que poderia
ajudar as pessoas com doenças degenerativas', disse o pesquisador, que também
pertence ao Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas da Argentina.
Os cientistas detectaram que quando o hipocampo gera novos
neurônios, as memórias adquiridas mais recentemente são mais bem retidas e
relembradas, enquanto as memórias mais antigas começam a ser difíceis de
lembrar, devido a 'interferências' produzidas pelos novos neurônios.
Para isso, os especialistas desenvolveram 'um monte de fórmulas'
que explicam o funcionamento do cérebro e simulam o acionamento do hipocampo,
disse Argibay, do Laboratório de Aprendizagem Biológica e Artificial do
hospital.
'Há poucas áreas do cérebro que geram novos neurônios. Os
neurônios criados no hipocampo ajudam a aceitar a novidade, ou seja, uma
lembrança nova fica muito gravada. As pessoas que têm esse processo deteriorado
têm lembranças muito antigas, mas se perdem com o novo', assinalou.
Esta descoberta, explicou o cientista, pode servir também para
as pessoas com depressão, a quem se costuma administrar remédios que 'ajudam a
criar novos neurônios, os quais permitem reter novas memórias e, desse modo,
deslocar as velhas que são traumáticas'.
'O fato de conhecer o funcionamento do hipocampo mediante o
simulador estimula o desenvolvimento de teorias sobre como poderia acontecer o
esquecimento e como poderíamos intervir sobre o fenômeno', especificou.
O hipocampo, chamado assim por causa de sua forma similar a um
cavalo marinho, é associado à denominada memória episódica, que permite lembrar
um evento a partir de algum de seus componentes, ou seja, quando a partir de
uma imagem é possível lembrar-se de uma situação vivida.
A pesquisa se baseou na neurogênese, descoberta nos anos 80 pelo
cientista argentino Fernando Nottebohm, que contradisse a hipótese aceita
durante décadas de que não novos neurônios não podiam ser criados no cérebro
adulto.
'Se algumas demências acontecessem como consequências da perda
de geração de neurônios poderiam recuperar essa capacidade com um tratamento
baseado em células-tronco ou substâncias para que o fenômeno aconteça', disse o
responsável pela pesquisa, que será publicada na revista 'Cognition'.
Por ora, no laboratório do instituto universitário está sendo
construído um robô com a capacidade de simular a função do hipocampo, o que
pode abrir caminho para novas descobertas para se evitar o esquecimento.
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