EUA aproximam 'sonho americano' de 1,2 milhões de jovens
Eles já se autodenominam "sonhadores" e a partir desta
quarta-feira podem ficar ainda mais perto do seu "sonho americano".
Centenas de milhares de jovens
imigrantes indocumentados que chegaram nos Estados Unidos antes dos 16 anos de
idade agora podem começar a requerer ao governo americano que não sejam
deportados, segundo regras que foram anunciadas em junho pelo Departamento
Segurança Interna.
As regras preveem que os
migrantes que forem aprovados receberão vistos de trabalho válidos por dois
anos, renováveis (sem, no entanto, receber a cidadania americana). Os
candidatos precisam cumprir critérios como ter estudado ou prestado serviço
militar aqui, não ter se envolvido em crimes e ter até 30 anos de idade quando
a lei foi anunciada, no dia 15 de junho.
Um cálculo do centro de estudos
Pew Research estima que 1,2 milhão de jovens já se enquadram nesse perfil e que
outros 500 mil em idade escolar podem se adequar às regras se se matricularem.
Do total de 1,7 milhão de
imigrantes que poderiam se beneficiar do projeto, 85% são hispânicos, calcula o
Pew.
Para delinear as novas regras, a
equipe de Barack Obama teve de pesar a reputação do presidente junto aos
latinos - que são 77% dos mais de 11 milhões de imigrantes ilegais nos EUA - no
contexto de um ano eleitoral e um clima anti-imigração, exarcebado pela
polarização política e a crise econômica.
ALEGRIA E PREOCUPAÇÃO
As medidas entram em vigor nesta quarta-feira
com um misto de alegria, expectativa e reticência por parte das mesmas pessoas
que devem se beneficiar delas.
"É uma vitória, mas ainda
temos muito o que fazer", diz o brasileiro Felipe Matos, de 26 anos, que
vive indocumentado nos EUA desde os 14 anos.
"Não é que o presidente
Barack Obama acordou e disse, 'Uau, precisamos resolver o problema dessas
pessoas'. É fruto de uma longa luta para que ele parasse com as
deportações."
No ano passado, o governo Obama
bateu um recorde ao deportar 400 mil imigrantes ilegais.
O diretor da ONG Casa de
Maryland, de tendência pró-imigração, indica que esse pensamento está na cabeça
de muitos estudantes que ainda têm um certo "receio" de se candidatar
aos papéis.
"Você está correndo um
risco. Está dando todas as suas informações para uma agência que pode
eventualmente usar essas mesmas informações para te deportar", disse.
OPORTUNIDADE
Entretanto, especialistas têm
incentivado os jovens a se candidatarem ao alívio à deportação, pela
oportunidade única que o projeto representa, em meio ao debate que vigora nos
EUA em torno da imigração ilegal.
Especialistas concordam que as
medidas que começam a valer nesta quarta-feira são o limite até onde o governo
pode avançar sem a aprovação de uma reforma migatória ampla pelo Congresso.
Mas a reforma migratória, contida
no Dream Act - um acrônimo para a lei de Desenvolvimento, Alívio e Educação
para Menores Estrangeiros, que em inglês forma a palavra 'sonho" - está
parada há uma década no Legislativo por causa da oposição anti-imigração.
O Dream Act criaria um caminho de
naturalização para jovens que cumprirem os mesmos critérios estabelecidos pela
nova regra do Departamento de Segurança Interna. A legislação quase chegou a
ser aprovada em 2010 e voltou a ser reintroduzida neste ano.
Muitos ativistas a favor da
imigração nos EUA creem que é uma questão de tempo para que a lei finalmente
seja aprovada e o país reveja o destino de cerca de 4,4 milhões de imigrantes
indocumentados abaixo dos 30 anos.
Mas para a brasileira Tereza Lee,
que esteve 20 anos na pele de um imigrante indocumentado, "para os
sonhadores não se trata simplesmente de uma questão de tempo".
"Eles precisam (dos papéis)
hoje, agora. Amanhã eles vão acordar indocumentados, sem saber como vão fazer
para ganhar a vida e contribuir com o país."
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