Afinal, o que é alergia e como começa uma crise alérgica?
Você é alérgico? Saiba que
cerca de 30% da população tem algum tipo de alergia. Uma reação do nosso
organismo a determinadas substâncias consideradas invasoras.
Imagine
ser dominado por vontades incontroláveis de coçar, tossir, espirrar. Quando
menos se espera, a alergia aparece. E como incomoda. E atrapalha.
Inimigos muitas vezes invisíveis. Que estão por aí. No ar que
respiramos. Você é alérgico? Saiba que milhões de pessoas no mundo dividem o
mesmo problema. Cerca de 30% da população tem algum tipo de alergia. Uma reação
do nosso organismo a determinadas substâncias consideradas invasoras.
Poeira, fungos, pólen, veneno de insetos, ácaros. Em contato com
eles, o sistema imunológico do alérgico logo se arma e monta um exército de
defesa. São os anticorpos que estimulam a liberação de histamina. É ela que
provoca coriza, espirros, coceira.
Em situações extremas os vasos sanguíneos se dilatam e a pressão
arterial cai. Os brônquios ficam contraídos e a glote, na laringe, pode se
fechar, impedindo a respiração. Sintomas de um choque anafilático.
Nadar, pedalar e correr. Carla Moreno se dedica a uma das
modalidades de esporte que mais exigem do atleta: o triathlon. Com vários
títulos na bagagem, ela é sem dúvida uma campeã. A duras penas. Carla é
asmática. Tinha crises frequentes, até mesmo no meio das provas.
“Já cheguei a ter parada cardio-respiratória, já cheguei a
desmaiar durante a parte do ciclismo e acordar logo na sequência e ver que já
estavam querendo me dar adrenalina porque eu não voltava”, contou Carla.
Se o esporte profissional era tão penoso, porque então escolher
este caminho? Tudo começou ainda na infância. A natação surgiu como um remédio
na vida de Carla.
“Comecei com sete anos de idade por orientação médica e na
verdade as minhas crises pioraram, porque o esporte é um gatilho pra asma. Eu
passei a ter mais problemas, mas mesmo assim eu não parei, eu persisti”, disse
Carla.
Foi isso. Carla se apaixonou cada vez mais pelo prazer que
sentia quando conseguia praticar o esporte. Um desafio constante. Mas, durante
anos, negou a doença.
“Você tinha medo do doping?”, perguntou a repórter Tatiana
Nascimento.
“Eu tinha medo de usar o medicamento e ser punida por um
problema que eu tenho. Eu sempre neguei a asma, sempre, sempre, até realmente
eu ter sucessivas crises e aí, eu pensei: ‘não posso viver assim minha vida
toda’”, respondeu Carla.
Ao decidir não mais lutar sozinha contra as próprias limitações, Carla fez uma descoberta.
Ao decidir não mais lutar sozinha contra as próprias limitações, Carla fez uma descoberta.
“De quanto é a tua deficiência pulmonar?”, questionou a
repórter.
“Parada como eu estou agora, se eu não estiver usando as
medicações, eu tenho uma deficiência de 32%, parada. Naturalmente, só tenho 70%
da capacidade dos meus pulmões”, afirmou
“E até uns cinco anos atrás mais ou menos você ia pras provas de
triatlo desse jeito?”, perguntou Tatiana
“Sim. Eu já fui a duas olimpíadas sem medicamento. E passando
mal, e tendo problemas”, revelou.
A decisão de assumir o tratamento ficou mais evidente ainda
quando Carla percebeu que, usando a medicação correta, poderia exercer todo o
potencial que tinha como atleta.
“Eu nem sabia que eu tinha tanta capacidade pra respirar. Foi
uma surpresa. É mais ou menos quando uma pessoa que não enxerga bem e de
repente ela põe o óculos e ela fala. ‘Nossa. Estou vendo tudo como cinema’. Pra
mim foi respirar. Como respirar é bom”, disse a atleta.
Por incrível que pareça, essa liberdade só veio há apenas cinco
anos. E aí tudo mudou. Carla tem autorização oficial para se medicar.
Diariamente, ela usa remédios preventivos, para não ter as crises. E está
sempre com a bombinha por perto, caso precise.
“Você tem autorização pra competir usando esses medicamentos?”,
indagou Tatiana.
“Isso. Treinamento e competição”, respondeu Carla.
Hoje, em Santos, litoral de São Paulo, Carla corre até 60
quilômetros por semana. Pedala 400 quilômetros. E nada cerca de 30 quilômetros.
Seis horas diárias de treino. A campeã sulamericana e panamericana, a única
brasileira até hoje que já venceu uma etapa do Circuito Mundial de Triathlon
não tem mais barreiras pela frente, a não ser as do próprio esporte.
“Agora eu vou melhorar cada vez mais”.
“Ninguém segura a Carla”, completou a repórter.
Só quem é alérgico, sabe como é conviver com os sintomas. O
incômodo, o constrangimento diante de uma crise de espirros, de tosse. Mas as
consequências de uma alergia podem ir além: determinar escolhas ou renúncias.
A estudante Michelle Fernandes tem apenas 19 anos, mas já tomou
decisões importantes. Ser enfermeira na área da pediatria e começou pelo curso
de técnica em enfermagem. Tudo ia muito bem até o início do estágio em um
hospital do Rio de Janeiro. Foi no centro cirúrgico que ela percebeu que algo
estava errado.
“Eu entrei no centro cirúrgico e botei a luva normal de látex e
os primeiros sintomas que eu senti foi coceira na mão e abrindo feridas. Aí,
depois disso, meus olhos começaram a inchar, e muitas das vezes também que eu
vinha pra cá, eu senti muita falta de ar, mas eu não sabia o porquê da minha
falta de ar, não sabia que a minha falta de ar era causada pela minha alergia
ao látex”, contou Michelle.
Após inúmeras crises, Michelle resolveu se consultar com um
alergista. Desconfiado das luvas, ele faz um teste para saber se as reações
eram mesmo provocadas pelo látex. O teste do braço deu positivo, mas o doutor
José Luis faz também o teste da luva, e Michelle começou a tossir.
Além da tosse, começou uma coceira insuportável. A dificuldade
de respirar, e as mãos com áreas avermelhadas confirmam a alergia. Michelle vê
seu sonho comprometido.
“Mas é que eu gosto de estar ali no hospital como
instrumentadora, eu gostei de poder estar ali ajudando as pessoas. É muito
gratificante ver as pessoas te agradecendo por você estar ajudando elas, eu
gostei daquilo, queria continuar ali naquela área”, afirmou Michelle.
Diante do problema revelado em pleno estágio, Michelle busca
solução nas luvas antialérgicas. Em vão. Elas amenizam a alergia de contato,
mas Michelle continua respirando o pó liberado pelas luvas de látex que os
colegas usam. E mais uma vez não aguenta.
“E você começa a passar mal mesmo?”, pergunta a repórter
Tatiana.
“É, começo a passar mal, às vezes eu peço pra me substituir,
botar outra pessoa no meu lugar e vou pra casa, tenho que fazer nebulização
porque minha asma não passa e muitas vezes eu fui até no hospital tomar remédio
na veia pra poder minha crise de asma e minha bronquite passarem”, responde
Michelle.
“O contato íntimo com o látex repetidamente pode fazer com que o
individuo se sensibilize a ele, se torne alérgico a ele e, conforme ele
continua o contato intimo e frequente com o látex, essa alergia vai se
intensificando”, explicou o médico.
Além das luvas antialérgicas, para conseguir terminar o estágio,
Michelle recorre a três tipos de remédio antes de entrar na sala de cirurgia.
Mas a alergia ao látex não tem cura, e os medicamentos não podem ser receita
pra vida toda. O médico aconselha: é preciso mudar de profissão. Desistir de
ser enfermeira.
“Ela tem uma alergia de grau leve a moderado, se ela for
trabalhando sempre nessa área, essa alergia vai se tornar cada vez mais grave
até chegar a um ponto que ela não vai poder ficar nessa profissão, sob risco de
vida. Ela pode ter crises de asma grave, após ter um edema de glote, que dá uma
parada respiratória súbita, ela pode ter uma reação anafilática. É tão sério
quanto um individuo alérgico a um inseto, a uma abelha, a um marimbondo, ser
picado por uma abelha ou marimbondo”, disse o doutor José Luis.
Pra quem já tinha o futuro planejado, o diagnóstico soa como uma
sentença. Michelle agora vai tentar o vestibular para nutrição. Mas ainda não
se conformou.
“Você já está meio que se despedindo?”, perguntou a repórter.
“É, eu fico um pouco triste de ter que sair daqui, saber que eu
nunca mais vou poder trabalhar no ambiente que eu queria, mas é melhor outra
coisa do que ficar o resto da vida passando mal e ter problemas no futuro”,
respondeu Michelle.
Aos nove anos de idade, Rafael é um menino bonito e saudável.
Mas por trás dessa bela imagem, há uma história que ninguém imagina e que
começou lá atrás.
“O Rafa, ele tinha vinte e seis dias, ele pegou uma virose e aí
começou com muita febre em casa, e até então ele só amamentava. E a gente levou
no hospital porque ele desidratou por conta dessa virose. Melhorou, dois dias
internado, o médico deu um leite pra ele voltar, voltar a mamar pra poder
liberar. E aí quando ele tomou esse leite no hospital ele asfixiou na hora. Por
conta da virose, ele tava na UTI, foi a nossa sorte”, contou a gerente
comercial Sandra Cristina Guizelini.
Sorte mesmo. Foi por pouco. A descoberta pegou todos de
surpresa. O pequeno Rafael, que até então só havia experimentado o leite
materno, tinha uma grave alergia ao leite de vaca. Foi o início de um longo
aprendizado para os pais. Um caminho cheio de sustos.
“Eu fiz o queijo na chapa, no fogão, o cheiro daquele queijo
sufocou ele na hora com um ano e meio”, disse Sandra.
“Ele não podia ter nenhum tipo de contato com nenhum tipo de
produto que tivesse sequer traços de leite. Teve um caso em que o tio dele
segurou o carrinho, havia pego um pouco de queijo na mão e foi empurrar o
carrinho e ele pôs a mão no mesmo lugar, imediatamente atacou a crise, tivemos
que sair correndo do supermercado”, afirmou o advogado Waldinei Guerino Junior,
pai do Rafa.
“Rafa, qual foi a pior crise que você lembra?”, perguntou Tatiana.
“Rafa, qual foi a pior crise que você lembra?”, perguntou Tatiana.
“Olha, a que eu lembro é a do capelletti”, respondeu Rafa.
“Provavelmente foi processado numa máquina que tinha queijo. Ele
comeu, atacou uma crise muito forte, o remédio não conseguiu ajudar ele, nós
corremos pro hospital e foi a primeira vez que ele tomou adrenalina”, disse o
pai do Rafa.
“Essa foi feia, Rafa?”, perguntou a repórter.
“Foi. Essa eu lembro bem”, respondeu Rafael Guizelini Guerino,
de 9 anos.
“Capelletti, esse aí, nunca mais comeu”, brincou Tatiana.
Quando se tem uma alergia alimentar o desafio é descobrir a qual
alimento o organismo está reagindo mal. E a partir dai tentar identificar o
causador da alergia nas mais variadas receitas. Num lanchinho, por exemplo, é
preciso saber os ingredientes de tudo o que está na mesa, já pensou?
Torta de chocolate. Brigadeiro. Pão de queijo. Difícil resistir.
Mas pra quem tem alergia ao leite, é um perigo. Qualquer dessas guloseimas pode
provocar uma reação com sérias consequências.
“Então de repente os seus vasos todos dilatam, você fica
vermelho, se dilata muito, você tem uma queda da pressão importante e ela leva
a broncoconstrição. Então, os seus brônquios se fecham e você tem uma dificuldade
respiratória importante. E está instalado um caso de alergia grave. A alergia
alimentar pode matar”, afirmou Ana Paula Moschione, alergista do Instituto da
Criança – HC/USP.
Os especialistas já sabem quais são os alimentos que mais causam
alergias. O leite, o ovo, o trigo, a soja, o amendoim, os peixes e os
crustáceos, principalmente o camarão.
“Infelizmente o tratamento clássico pra alergia alimentar é
afastar o alimento. Isso significa muitas vezes afastar o alimento, mas,
também, qualquer outro produto que contenha esse alimento”, disse a doutora Ana
Paula.
As crises graves costumam ser controladas com adrenalina
injetável. Mas é possível tratar algumas alergias alimentares de outra forma: o
segredo é dessensibilizar o organismo. Como? Com o próprio alimento. Criando
tolerância a ele.
“Por exemplo, leite, ovo, trigo, são alimentos que são passíveis
dessa indução de tolerância. São alimentos que em geral o paciente já tem uma
propensão em desenvolver uma tolerância natural e a gente antecipa esse
processo. Amendoim, camarão, peixe, são alimentos que dificilmente, no momento,
a gente vai induzir essa tolerância. Tem que cortar”, ressaltou a doutora Ana
Paula.
Mais uma vez, Rafa teve sorte. A alergia ao leite tinha
tratamento, mas não era fácil. Ele começou tomando apenas uma gota de leite,
diluída em um milhão de gotas de água. Tudo para não provocar a crise alérgica.
“O processo tem que ser lento, não adianta você ter pressa pra
que isso aconteça porque você tem que acostumar o seu sistema imunológico a
essa tolerância, é uma tolerância conquistada”, disse a doutora Ana Paula.
Os pais de Rafa relutaram muito. Tinham medo de submeter o filho
à dessensibilzação. Medo das crises.
“Eu cheguei a pensar em desistir, cheguei a ligar pra medica e
falar eu não aguento mais ele passando mal, ele passando mal todo o dia”,
contou Sandra, mãe.
“Durante o tratamento, ele teve algumas crises sérias?”,
questionou Tatiana.
“Em algumas das vezes ele ficou vermelho, teve um desconforto
respiratório e foi necessário o uso de medicação”, respondeu Ana Paula.
O acompanhamento rígido da médica foi o que garantiu o sucesso do
tratamento. Aos poucos, Rafa está chegando lá. Se prepara para ter um futuro
com mais liberdade e sem precisar da eterna vigilância dos pais.
“É fundamental manter a tolerância, todo o dia, esse contato
diário com a proteína que a gente fez a dessensibilização. É fundamental para
manter o sistema imunológico atento”, disse Ana Paula.
É, o que o Rafa gosta está na mesa cheia de guloseimas, nas
quais sempre vai leite. E, vamos combinar. Essas delícias não atraem só ele,
não é mesmo?
“Rafa, comer um brigadeiro era um sonho?”, perguntou Tatiana.
“Era, porque antes eu tinha que comer brigadeiro com leite de
soja, agora eu posso comer com leite normal”, respondeu Rafa.
“Entre o brigadeiro feito com leite de soja e o feito com leite
normal, qual o melhor?”, perguntou a repórter.
“O de leite normal é imbatível”, disse Rafa.
“Então, bom apetite”, completou Tatiana.
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