Thiago Medaglia
As vozes do passado podem ensinar
lições preciosas para o futuro da floresta amazônica.
É o que acredita o arqueólogo Eduardo Góes Neves,
pesquisador da USP. “A Amazônia não é apenas uma floresta natural, mas também
cultural”, diz.
Doutor pela Universidade de
Indiana (EUA) e professor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade
de São Paulo, Edu Neves, como é conhecido, foi o autor da premiada reportagem
Brasil Ano 1000, publicada na revista National Geographic Brasil (edição de maio de 2010) . O
pesquisador foi um dos palestrantes no encontro Novas ideias para a Amazônia,
realizado entre os dias 15 e 19 de março pelo Planeta
Sustentável, da Editora Abril, nos arredores de Manaus, e que
contou com a presença de alguns dos principais pesquisadores e representantes
do setor privado com atuação na região.
A primeira participação de Neves
em uma pesquisa de campo na Amazônia foi em 1986, quando tinha 20 anos idade.
“Foi nas proximidades de Altamira, no rio Xingu”, recorda. De lá para cá, Neves
trabalhou em inúmeros outros lugares da região, como, por exemplo, na bacia do rio
Negro, no Amazonas, em diferentes partes de Rondônia, na bacia
do rio Solimões e também na região do Oiapoque, no Amapá. Leia a seguir a
entrevista que ele concedeu à NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL no barco que sediou o
evento.
NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL -Em
que consiste o trabalho arqueológico na Bacia Amazônica?
EDUARDO NEVES – Meu trabalho é entender a maneira pela qual os povos indígenas ocuparam a Amazônia no passado: como viviam, quantos eram, quais eram suas formas de organização social. E como as paisagens regionais foram moldadas e transformadas por essas ocupações.
Quais os principais resultados
das pesquisas de campo?
Nossos estudos demonstram que a Amazônia é ocupada há muito tempo e que isso sempre se deu de forma diversificada. Em outras palavras, além da biodiversidade amazônica houve também muita sociodiversidade no passado da região.
Em termos de populações
humanas, qual era o cenário na Amazônia antes da chegada dos europeus?
Não há ainda dados seguros, mas a maioria dos arqueólogos trabalha com a hipótese de que havia cerca de 5,5 milhões de pessoas na região antes do descobrimento. Essas populações tinham modos de vida bastante distintos que incluíam desde sociedades sedentárias que viviam em cidades até grupos nômades de caçadores-coletores.
Quais as interferências destas
populações na biodiversidade da floresta?
Foram muitas e incluem desde a formação de solos antrópicos e produtivos como as terras pretas, a construção de canais e diques de irrigação, a plantação de matas de castanha do Pará por quase toda a bacia.
Pode falar um pouco mais da
terra preta?
São solos muito férteis, de coloração escura, em meio ao qual se encontram fragmentos cerâmicos. Podem chegar a mais de dois metros de profundidade e, mesmo nos dias de hoje, são procurados por agricultores, que reconhecem ali uma melhor possibilidade de cultivo, já que o solo amazônico em geral é pobre. Além dessas características, acho que a terra preta rende uma metáfora bastante atual para a Amazônia; ela não é natural, nem cultural, mas sim uma mistura das duas coisas. A Amazônia para mim é isso: não se pode falar da floresta sem pensar em seus habitantes tradicionais: índios, ribeirinhos, caboclos, quilombolas. Do mesmo modo que não se pode falar dessas populações sem entender como vivem há tempos na floresta.
Você acha que essa é uma das
contribuições da arqueologia para trazer novas ideias para o futuro da Amazônia?
A arqueologia mostra que, no passado, a Amazônia foi ocupada através de estratégias de diversificação, compatíveis com as condições naturais do bioma. Qualquer perspectiva para o futuro da região deve partir da mesma premissa: de que o caminho é o da diversidade e não o da especialização. É preciso olhar para a floresta como uma biblioteca, uma fonte de conhecimento e não como um recurso a ser destruído e consumido no curto prazo.
As obras de usinas
hidrelétricas na bacia do rio Amazonas podem impactar os sítios arqueológicos?
É possível mensurar estas perdas?
O Brasil tem uma legislação que prevê a realização de trabalhos de arqueologia preventiva em locais que poderão ser impactados por obras de qualquer natureza. Há um órgão federal, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico de Artístico Nacional), que disciplina estas atividades e também muitas empresas de arqueologia envolvidas nestes trabalhos – algumas delas de alto nível. Há, no entanto, uma carência muito grande de profissionais no país, apesar do aumento de cursos de graduação que tem ocorrido nos últimos anos. O problema é que esses profissionais recém-egressos dos cursos de graduação nem sempre têm a experiência necessária para coordenar grandes projetos, ao mesmo tempo em que as empresas de arqueologia, devido à concorrência acirrada, não têm condições de remunerar os arqueólogos mais experientes, que têm titulação acadêmica, como consultores ou participantes nas atividades. Para complicar mais, é impossível em dois ou três anos – que tem sido o prazo dos licenciamentos – produzir conhecimento consistente sobre áreas nunca antes estudadas. Não se trata de uma questão de competência, mas de uma situação limite, característica da época na qual vivemos.
Qual é a condição dos estudos
arqueológicos na Amazônia brasileira: há pesquisadores suficientes em campo
hoje?
A arqueologia na região cresceu muito. Há poucos anos o Museu Goeldi, em Belém, era o único centro de formação e de pesquisas. Hoje existem, em diferentes níveis, profissionais trabalhando com arqueologia em todos os estados da Amazônia.
IDEIAS PARA O
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DA AMAZÔNIA
Durante
o seminário “flutuante” Novas Ideias para o Futuro da Amazônia, realizado pelo
Planeta Sustentável, foram realizados debates sobre clima, biodiversidade,
infraestrutura, planos de negócios e modelos de gestão. Neste post, estão
disponíveis para consulta algumas das apresentações utilizadas pelos
palestrantes deste encontro:
7 TEMAS PARA O DESENVOLVIMENTO DA AMAZÔNIA
Para resumir o painel que acabara
de mediar no seminário “Novas
Ideias para o Futuro da Amazônia”, Tasso de Azevedo, engenheiro
florestal, consultor do Ministério do Meio Ambiente e conselheiro do Planeta
Sustentável, propôs sete temas-chave para o desenvolvimento sustentável da
Amazônia, inspirado pelas apresentações dos participantes.
A nosso convite, Tasso escreveu
sobre sua proposta neste blog, pouco antes de viajar para Nova York, para
participar de reunião preparatória para a Rio+20. Agora,
enquanto finalizamos a publicação de todo conteúdo (editado) do encontro,
resgatamos sua análise, que encerrou o painel do dia 17/03, pela manhã:
1. Identificar o responsável pela posse e gestão de cada área da
Amazônia;
2. Mudança importante de papéis: setor privado agindo como indutor
da sustentabilidade, em vez de responder à indução do estado;
3. Ilusão de curto prazo? Ou impactos de longo prazo?
4. O que escolhemos? Investir na Amazônia para servir ao Brasil ou
investir na Amazônia para o desenvolvimento sustentável da região, levando em
conta os quatro pilares da sustentabilidade – cultura, ambiente, sociedade e
economia -, de forma que os benefícios também transbordem para todo o Brasil;
5. Olhar para os rios: usando uma expressão comum na região, vamos
ficar de frente para o rio? Ou de costas para ele?
6. Escolher a régua certa para medir o desenvolvimento da Amazônia
e seu legado. O PIB – Produto Interno Bruto reduz o FIB – Felicidade Interna
Bruta? Isso realmente importa? É preciso criar uma nova régua?
7. O diálogo como a base para a construção de novos caminhos, reconhecendo
que é na diversidade de opiniões que reside a fortaleza para enfrentar os
riscos dos tropeços com a certeza de mais acertos.



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